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Primeiro Contato

Há quatro anos, eu viajei com meus colegas para uma região remota da Amazônia Brasileira para investigar a exploração ilegal de madeira em uma área cercada por terras indígenas. Foi quando fizemos o primeiro contato com os Deni, um povo indígena que depende da floresta para sobreviver.

© Greenpeace/Isabelle Rouvillois

O trabalho com os Deni para apoiá-los a proteger sua terra de invasões e da destruição tem sido incrível, mas aqueles primeiros dias foram mágicos - quando nós plantamos juntos as sementes da esperança, inspiração e ativismo na distante floresta dos Deni.

19 de maio de 1999
Ima Amusinaha, terras da WTK, Rio Cuniuá

Desde ontem, nós estamos navegando na fronteira de dois mundos diferentes: à direita, a terra indígena dos Suruahá; à esquerda, as terras adquiridas pela madeireira WTK, da Malásia, em 1995. Elas não são fisicamente diferentes - apenas moralmente.

A WTK adquiriu estas terras praticamente de graça - US$ 3 por hectare - do empresário amazonense Mário Moraes, que alega possuir mais de 1 milhão de hectares aqui. Não é difícil se transformar em um grande proprietário de terras em áreas remotas da Amazônia: você só precisa ir até um cartório e pagar algumas taxas. Se ninguém reivindicar pela área ou se não houver nenhuma terra indígena por perto, então, a terra é sua. Num passado ainda recente, invasores de terras e empresas mineradoras contribuíram para exterminar muitos povos indígenas. Algumas vezes, eles costumavam jogar roupas e comidas contaminadas de aviões, espalhando vírus de doenças como gripe, sarampo e tuberculose, contra as quais as populações locais não tinham defesa.

Ontem, nós passamos todo o dia investigando as terras adquiridas pela WTK, subindo o rio Canaçã, afluente do rio Cuniuá, em duas voadeiras. Em algumas áreas, paramos para checar a composição da floresta, confirmando nossas suspeitas: nenhuma exploração madeireira foi feita previamente nessa região de floresta firme. Belos espécimes de cedro ainda estão lá, perto do rio; macacos marrons faziam a festa em uma árvore próxima, cheia de frutos, e um gavião real passou voando majestosamente, carregando uma grande cobra em suas garras.

O que será desta paisagem nos próximos anos se a WTK começar a explorar madeira aqui?

Ao nos aproximarmos da primeira aldeia Deni, a de Cidadezinha, um misto de festa e boas conversas esperavam por nós.

Rodrigo, um antropólogo que trabalha para a Funai, se juntou a nós com um pesquisador que está viajando com ele. Ele está encarregado de escrever um relatório sobre o povo Deni como parte do processo para a demarcação da terra. Rodrigo tem o tipo de sorriso que faz você confiar nele logo no primeiro encontro. Ele confirmou nossas suspeitas de que os Deni caçam e extraem produtos da floresta na parte de terra adquirida pela WTK.

Fomos recebidos por Tata, o vice-Tuxaua ou vice-chefe dessa aldeia, e seu irmão, Kubuvi, o terceiro homem na hierarquia. Tata, recém-guindado à posição de liderança, nos guiou pela aldeia, que consiste em 13 casas e 94 habitantes - 20 homens, 23 mulheres e 51 crianças. Muitos homens estão fora, pescando com tingui (vegetal venenoso que mata os peixes) para a festa de hoje à noite. Ao voltar para casa, horas depois, sem nenhum peixe, os homens não ficam felizes em nos ver na aldeia com suas mulheres e filhas desprotegidas. Mas, seu ciúme logo desaparece quando Tata sugere que nós providenciemos comida para a festa - o que naturalmente concordamos em fazer. Na festa, todas as aldeias estão presentes, dançando forró, que ressoa alto de um gravador a bateria. É surpreendente ver as crianças Deni dançando forró. Eles não têm eletricidade e não há nenhuma discoteca pelos próximos cem quilômetros.

Como eles conseguem dançar melhor do que eu?

O povo Deni foi reduzido a 736 pessoas em todas as aldeias das bacias dos rios Cuniuá e Xeruã. Em 1999, 20% da população Deni morreu devido às epidemias de sarampo - talvez por causa do contato com pessoas doentes que chegaram em suas aldeias. Agora, os Deni estão mais bem preparados.

"Mas nossa população está crescendo agora", diz o Tuxaua Kubuvi, olhando várias crianças a sua volta. Algumas têm malária e doenças de pele, relacionadas à falta de higiene básica. Outro problema, comum a todos os Deni, são as más condições dos dentes. Os Deni poderiam se beneficiar de um programa básico de saúde. Mas quem fará isso se o governo está tão distante e não há mais ninguém para ajudá-los?

© Greenpeace/Flavio Cannalonga

Mas, apesar de todos seus problemas, eles parecem felizes.

"Eles vivem em festa", disse o antropólogo alemão Gunter Kroemer, que trabalhou com os Deni. "Sua felicidade é compartilhada através das boas conversas, da comida, de suas brincadeiras, canções e danças. As palavras Deni para 'festa' - ima amusinaha - significa literalmente 'a continuação de uma boa conversa'."

Criança Deni em uma rede. © Greenpeace/Flávio Cannalonga

22 de Maio de 1999
Ima Amusinaha, Rio Cuniuá

As coisas estão acontecendo depressa agora - assim como nosso barco, o Noé IV, que navega rio abaixo com mais velocidade, em comparação à viagem rio acima do Cuniuá.

Há alguns dias, nós tivemos pouco ou nenhum contato com as pessoas que vivem às margens do Cuniuá. Hoje à noite, enquanto escrevo esta mensagem no "deck de cima", dois olhos negros me observam, fascinados pelos movimentos dos meus dedos no teclado, como se eu fosse um mágico realizando um truque - as letras aparecendo do nada na tela do computador.

Como alguém poderia entender os Deni, que vivem uma vida tão precária e dura aqui - tão diferente da nossa existência cotidiana? Eles parecem existir em harmonia com a natureza - plantando, caçando e pescando apenas para sua própria sobrevivência. E, quando sentem que a floresta precisa de tempo para se recuperar de sua presença, mudam toda a aldeia para outro local. Sua existência é tênue e poderá desaparecer completamente em breve. Que responsabilidade temos para assegurar que isso não aconteça? E quanta ajuda podemos oferecer? E quanto é muito? Parece que há mais perguntas do que respostas.

Desde a manhã da última quinta-feira - quando os Deni embarcaram no Noé IV, perto de Cidadezinha - tudo parecia novo, para nós e para eles. Desde então, a presença Deni tem sido permanente - em todo lugar, a todo o momento, noite e dia. Tente escovar seus dentes pela manhã na única pia a bordo do barco e vários pares de olhos Deni - praticamente metade da comunidade - estarão lá, seguindo cada movimento com um sorriso estranho em seus rostos. Tente comer ou tomar um café, e lá estão eles de novo. Eles simplesmente não resistem à sua curiosidade. Dá para culpá-los? Eu suspeito que eles estão pensando a mesma coisa de nós.

Em todas as aldeias Deni que visitamos, a recepção sempre foi amigável e calorosa. Todas as vezes, passamos pelo mesmo ritual, sendo recebidos no porto por um bando de crianças. Depois, nos apresentávamos aos 'Tuxauás' e éramos convidados para ir à casa do chefe mais importante. (Cada tribo tem mais de um - em Cidadezinha, há três; em Marrecão, quatro; e em Visagem, três).

Em todas as aldeias, nos reunimos com a comunidade para explicar quem e o que o Greenpeace faz e quais são nossos objetivos na Amazônia. Em cada encontro, ouvimos as mesmas reclamações e uma oposição geral a qualquer atividade madeireira em seu território. E, invariavelmente, Ian, o médico do Greenpeace, examinou as condições de saúde dos habitantes e tratou dos doentes. Depois, nós trocamos açúcar, óleo, arroz, diesel e outras coisas que os Deni precisavam por frutas e alguns patos, já que nosso estoque de comida está acabando. Finalmente, uma festa - já que as festas constituem os momentos mais importantes da vida Deni.

O terceiro e último encontro entre os Deni e o Greenpeace começa. Já estou cansado, depois da reunião emocionante desta manhã, na aldeia Visagem.

O Tuxauá Haku e dois outros Deni sentam perto de um pedaço de tecido amarelo que trouxemos para a ocasião. Eu os convido a desenhar um mapa de seu mundo, sua aldeia, casas, lugares de caça, plantações, rios e outras comunidades Deni.

Hesitantes no início, eles se entusiasmam depressa, discutindo entre si, em língua Deni, onde a casa de cada família está localizada, onde os rios devem ser desenhados no mapa, onde a pista de pouso e decolagem dos missionários foi construída. Algumas vezes, Haku passa um longo tempo pensando e olhando em volta, como se procurasse por ajuda. Depois, rabisca uma linha que representa o caminho usado para caçar e extrair óleo de copaíba. A linha fica do outro lado do Rio Cuniuá, dentro da área recentemente comprada pela WTK. O pano amarelo à nossa frente é um claro testemunho da invasão do território Deni.

Nossa vez. Eu tento explicar de onde viemos, usando meus braços da mesma forma como eles fazem, para desenhar uma linha imaginária no ar e mostrar a distância que nos separa da Inglaterra, de Ian, e mostrar onde fica o Canadá, de Russell. Falamos sobre Amsterdam, Bahia (lindo estado brasileiro, onde Pedro, nosso cinegrafista, mora) e Rio de Janeiro, cidade-natal do Nilo e a minha também.

As mulheres Deni fazem comentários para seus homens. É a primeira vez que elas conversam de forma tão aberta na nossa frente.

Nós falamos sobre a longa viagem que fizemos de Manaus em direção à terra Deni e descrevemos as várias jangadas com madeira que vimos pelo caminho. Nós mencionamos os rios que já navegamos e falamos sobre o Greenpeace. Eles nos ajudam a traduzir a palavra Greenpeace para a língua Deni - o resultado é alguma coisa como: Tamatukerari derepedeh. Não é fácil explicar por quê lutamos para proteger o meio-ambiente para pessoas que sempre viveram em equilíbrio com a natureza. Nós mostramos uma revista com fotos de indústrias madeireiras em atividade em outras áreas da Amazônia. A revista é passada avidamente de mãos em mãos.

Nós sentimos como se estivéssemos em um território desconhecido em um rio misterioso - será que eles percebem as coisas da mesma maneira que nós?

Finalmente, nós mostramos a eles o mapa das terras da WTK e do Moraes - e comparamos com o mapa que eles desenharam no pano amarelo. Num primeiro momento, eles ficam surpresos ao descobrir que suas terras são as mesmas compradas pela WTK do Sr. Moraes. Eles conversam entre si em Deni, mas depois mudam para o português. Eles estão extremamente bravos. Nós ouvimos muitos deles dizendo: "Esta terra é Deni". Nilo faz uma provocação: "Tem certeza?".

"Sim!", até mesmo as mulheres gritam.

Em todas as reuniões, eles nos passaram uma mensagem muito clara: os Deni não querem que as companhias madeireiras operem dentro de suas terras.

Os Deni então pediram nossa ajuda para lutar pela demarcação de sua terra. Eles entenderam que a demarcação, que é o reconhecimento constitucional de seus direitos sobre seus territórios, é o único caminho para garantir a integridade do ambiente de que dependem para sobreviver. Era o único caminho legal para manter a WTK e outros invasores fora dos limites de sua terra.

Nós vamos ajudá-los a proteger sua terra e a proteger a floresta de que dependem para manter seu modo de vida. Nós vamos ajudá-los para que suas vozes sejam ouvidas do topo das árvores da floresta até Brasília. E é bom saber que voltaremos em breve para essa floresta paradisíaca, o lar dos Deni.

Paulo Adário
Coordenador da Campanha da Amazônia do Greenpeace
Expedição pelo Rio Purus,1999