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O Treinamento

Em fevereiro de 2001, o Greenpeace voltou à terra Deni com um time multi-disciplinar - incluindo antropólogo, sociólogo, especialista em assuntos indígenas e engenheiro agrônomo - para realizar workshops com aulas teóricas e práticas sobre a demarcação.

© Greenpeace/Flavio Cannalonga

Os Deni aprenderam como manejar equipamentos como bússolas, teodolitos e GPS. Ao combinar essas novas habilidades com o conhecimento tradicional sobre as fronteiras de sua terra, o treinamento capacitou os Deni a realizar o processo de demarcação física. Rebeca Lerer acompanhou a expedição do Greenpeace para documentar o treinamento. Aqui estão alguns trechos de seu diário de viagem.

19 de fevereiro de 2001
Rio Cuniuá, Terra Deni

Hoje, eu aprendi como me apresentar na língua Deni. "Mazukameni Rebeca". Não sei porque eles riam de mim cada vez que eu tentava me apresentar. Talvez meu nome soasse muito engraçado para eles, da mesma forma que, para mim, seus nomes são difíceis de pronunciar: Tuberini, Paiini, Viini, Valara...

Os Deni parecem estar bastante excitados com os workshops e aulas sobre a demarcação. "Nós nunca deixaremos nossas terras", disse Kubuvi, enquanto fitava seriamente o rio e suas crianças. "Nós precisamos desta terra para sobreviver. Nós precisamos pescar e caçar para nos alimentar. Para isso, precisamos de muito espaço", o patarahu (chefe) me disse.

Fernando, nosso piloto, chegou no hidroavião do Greenpeace com representantes da Funai e do PPTAL (que é o programa do PPG7 de investimento para assuntos indígenas nas florestas brasileiras).

A presença de autoridades governamentais como o PPTAL e a Funai deve favorecer o debate sobre demarcação da terra Deni, especialmente em relação a datas e cronogramas.

Nós estamos subindo o rio Cuniuá de novo, em direção à aldeia Sumaúma, onde nós vamos encontrar o restante da equipe do projeto de demarcação e os líderes Deni das oito aldeias. A aventura está apenas começando.

20 de fevereiro de 2001
Rio Cuniuá, Terra Deni

Acabamos de pegar o Liberato no caminho. Ele é o engenheiro especializado em agricultura, que vai conduzir os workshops de cartografia e topografia para os Deni como parte do nosso Projeto de Demarcação. Nós nos encontramos enquanto ele remava rio abaixo, em uma canoa.

Quando eu vi o Liberato pela primeira vez, há seis meses, ele parecia um professor que tinha acabado de sair da sala de aula. Hoje, o homem que vejo a bordo do Comandante Sávio é forte e barbudo, e está vestido para enfrentar os piuns, os infames insetos que fazem os mosquitos parecerem inofensivos. Parecendo um aventureiro dos anos 70, é fácil notar que ele está feliz. A floresta amazônica faz isso com as pessoas.

Como sempre, fomos recebidos de braços abertos e com muitos sorrisos. Eu sempre fico impressionada com o fato de que essas pessoas reconheçam imediatamente a essência humana que compartilhamos, apesar da nossa cultura diferente e dos estranhos equipamentos que carregamos.

Eu perguntei para Renata, assistente-social que está escrevendo um relatório sobre a cultura Deni, como é o processo de assimilação hoje em dia.

Os Deni sofreram muito com os primeiros contatos com os "brancos", na década de 60. Eles ficaram doentes e travaram combates mortais com as frentes de colonização. Este trauma se torna mais evidente quando se trata da saúde dos Deni. "Este trauma surgiu com as perdas que eles sofreram no passado. Os Deni estão sempre extremamente preocupados quanto à saúde de suas crianças e qualquer acidente ou sinal de doença os preocupa muito", Renata me contou.

"Mas, atualmente, estas populações indígenas estão interessadas em aprender conosco. Alguns querem aprender a ler e a escrever. Eles reclamam sobre a falta de professores", ela disse. "Eles realmente podem se beneficiar de sua relação com os brancos, aprendendo como se organizar e lutar por seus direitos".

© Greenpeace/Flavio Cannalonga

Por isso, Renata acredita que o contato com os brancos não representa mais um grande risco para os Deni, principalmente porque hábitos como o xamanismo, a medicina tradicional e a língua nativa estão assegurados. "Com o tempo, eles perderam alguns aspectos de sua cultura ancestral. Eles não usam mais cerâmica para cozinhar, por exemplo. Eles sabem que é muito mais fácil usar panelas de alumínio. Porém, isso não significa que as mulheres se esqueceram da arte da cerâmica. No todo, a essência do modo de vida Deni foi preservada", ela disse.

Índias Deni. © Greenpeace/Flávio Cannalonga

21 de fevereiro de 2001
Aldeia Sumaúma, Terra Deni

Hoje de manhã, fomos à casa de Kuaman. Ele é um zupinehe (xamã) - posição-chave na sociedade Deni. Kuaman é conhecido em todas as aldeias Deni e é uma das ligações mais fortes entre as aldeias do Cuniuá e do Xeruã. Respeitado e respeitoso, é um homem de poucas palavras. Quando fala, todas as cabeças se voltam em sua direção e as pessoas ficam em silêncio. Mais do que um líder, ele parece ser uma inspiração permanente.

Além de curar, o zupinehe também é responsável por manter a harmonia entre o corpo e a alma. "Somente um Deni pode curar as doenças Deni, e apenas o zupinehe pode eliminar feitiçarias", eles dizem. Os Deni acreditam que o zupinehe pode se comunicar com as almas e que seu espírito pode abandonar o corpo físico e viajar.

"Tem dinheiro para fazer a demarcação, isso não é o problema. O problema é algo chamado burocracia", diz Henrique Cavallero, tentando explicar as dificuldades dos brancos em demarcar as terras Deni. Em um lugar onde a palavra falada é suficiente para firmar um acordo, é quase impossível traduzir o significado da palavra burocracia.

Henrique, 35, trabalha para o PPTAL, o programa de financiamento do PPG7 que visa demarcar e apoiar 170 terras indígenas na Amazônia brasileira. O PPTAL recebe dinheiro principalmente da agência alemã KFW e conta com suporte técnico da instituição alemã, GTZ. "Tais recursos são repassados para a FUNAI, para que possam ser aplicados em projetos de demarcação", ele disse.

Durante a reunião na casa de Kuaman com líderes de todas as aldeias Deni, Henrique também informou os índios sobre as possibilidades de obter fundos para projetos de vigilância e de saúde. "O problema é que os Deni só terão acesso a essas linhas de crédito depois que sua terra for demarcada", argumenta Nilo.

Impressionado com a reunião e com a capacidade técnica dos Deni, Henrique apóia que a demarcação da terra Deni seja realizada em 2001. "Como o relatório está sendo publicado hoje no Diário Oficial da União, há boas chances de que a terra seja demarcada este ano. Vocês (Deni) e organizações como o Greenpeace, Cimi e Opan devem trabalhar para que a opinião pública pressione o governo a terminar este trabalho de uma vez", ele disse para os líderes Deni.

Mais tarde, os Deni voltaram ao trabalho, aprendendo como usar os equipamentos de demarcação. Zena, o amigo do Todd, segura o botão verde do teodolito e grita "Piiiiip". Com a ajuda de Vaisuvi, da aldeia Visagem, ele mede a distância entre dois pontos, enquanto um terceiro Deni monta a baliza. Eles manuseiam os equipamentos com cuidado e são tímidos para mostrar seu conhecimento sobre topografia para as câmeras. Eles lêem os ângulos, graus e minutos, e transformam esses complicados números em ações práticas.

"Durante o processo de ensino, tivemos de considerar as características Deni de conhecimento coletivo. Como eles não escrevem, eles mantém seu aprendizado compartilhando a informação entre si", disse Liberato, retomando sua postura de professor. "Outro elemento que exploramos foi o talento e o hábito de caçar. Caçar um animal na floresta é uma atividade que demanda alto grau de precisão, assim como lidar com a topografia".

O pôr e o nascer do sol são as principais referências usadas para ensinar os conceitos de Norte e Sul. Só então angulações podem ser abordadas. O processo de aprendizado é intenso e os resultados são visíveis. "Foi difícil, mas foi bom. Eu nunca vou esquecer o que eu aprendi", Vaisuvi me disse.

23 de fevereiro de 2001
Acampamento Macahaini, Rio Aruá, Terra Deni

Manhã nublada.
Deixamos o Comandante Sávio em duas voadeiras, com sete pessoas da equipe/tripulação (nós, Cimi e Opan) e 8 líderes Deni, mais comida, câmeras, gasolina, equipamento de topografia, uma moto-serra, redes, mosquiteiros, material médico e mais. Meu computador foi substituído pelo velho e bom papel e caneta. Nós subimos o Rio Aruá e, segundo informações de pessoas locais, ninguém foi tão longe nos últimos três anos. Nem mesmo os Deni.

Enquanto fazíamos outra curva, pássaros de todos os tipos e tamanhos nos cumprimentaram. Um céu de árvores submersas dançava ballet no ritmo das ondas criadas pela passagem das lanchas. Cipós retorcidos e folhas gigantes descolavam das paredes verdes. Também vimos flores coloridas, aqui e acolá. O Rio Aruá relembrou a descrição de um paraíso perdido.

Vaisuvi sentou-se ao meu lado. Fiquei agradecida por ter um guia tão habilidoso no meu primeiro acampamento na floresta amazônica. Fiquei fazendo perguntas durante todo o caminho e ele não pareceu se importar em respondê-las. Ele me disse que já havia estado no Rio Aruá há muito tempo, procurando por árvores de copaíba para extrair o óleo. Ele apontou macacos guariba a uma distância que apenas olhos treinados poderiam enxergar.

Muito antes do esperado, alcançamos o P18, na confluência do Rio Aruá e do Igarapé Aruazinho. De acordo com o relatório da Funai, o Aruazinho será uma fronteira natural usada para a demarcação; do seu lado esquerdo estão as terras Deni.

Num momento histórico, o líder Deni Zena leu as coordenadas no GPS e reconheceu a fronteira sul de seu território. Todos os oito líderes Deni estavam com os olhos brilhantes e não podiam deixar de comemorar e sorrir. Havia uma grande energia no ar. Mais do que nunca, eles sabiam e entendiam que eram os donos daquela terra. Mais do que nunca, eles se sentiam próximos de garantir um modo de vida pacífico para eles e para as futuras gerações.

Naquela tarde, a aula prática sobre demarcação começou.
Vaisuvi comandou o time. Ele montou o teodolito (um instrumento telescópico montado sobre um tripé, que mede ângulos horizontais e verticais) e dirigiu os outros Deni nas posições corretas para abrir a trilha da demarcação. Ele é um diplomata nato, transferindo as noções Deni de trabalho coletivo para o uso de máquinas modernas. É incrível.

Liberato não poderia estar mais feliz. "Estas são as mesmas condições de uma situação real de demarcação", disse o orgulhoso professor.

 


Uma trilha de 60 metros de comprimento foi aberta e demarcada na floresta. A primeira parte do projeto Greenpeace para apoiar a demarcação da terra Deni estava completa. Basicamente, isso significa que se o governo falhar em sua tarefa para preservar os direitos Deni, eles serão capazes, agora, de realizar demarcação de sua própria terra, necessitando apenas de algum apoio técnico.

Meninas Deni fazem no rosto de Rebeca pinturas tradicionais na vila Deni de Sumaúma. © Greenpeace/Flávio Cannalonga

27 de fevereiro de 2001
Rio Cuniuá, Terra Deni

De volta a uma das aldeias, Raku é um líder Deni falante. Casado e pai de oito crianças, ele possui um cão furioso chamado Hari Jr. Atrás de sua cabana, bromélias vermelhas enfeitam o cenário - resultado do trabalho habilidoso de jardineiros. A reunião aconteceu em sua casa e foi bastante parecida com as anteriores. Atualizamos informações sobre o processo de demarcação, próximos passos, Funai, PPTAL, etc.

"Agora que o relatório foi publicado, nós temos de esperar 3 luas para, então, pressionar a Funai e fazer o governo trabalhar", disse Nilo. E acrescentou: "A Funai sabe que a demarcação deve acontecer no verão, em setembro, quando o nível da água está baixo. Se não, ela só poderá ser feita em 2002. Até o tapir (espécie de porco) sabe disso".

Raku riu por um momento e respondeu ao recuperar uma expressão séria: "Os Deni estão cansados de esperar. Agora que aprendemos como demarcar, se a FUNAI não o fizer, nós o faremos". Os outros homens na sala concordaram.

Estamos agora navegando em direção à aldeia Cidadezinha, nossa última parada antes de deixar a terra Deni.
Pessoalmente, aprendi muito sobre o espírito humano nos 10 dias que compartilhei com essas pessoas de bom temperamento. Eu levarei suas risadas e sonhos comigo, onde eu estiver, como uma inspiração permanente.

Rebeca Lerer
Campaigner da Amazônia do Greenpeace
Expedição de Treinamento para a Demarcação da Terra Deni, 2001