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Auto-demarcação

Depois de esperar por 16 anos pela demarcação de sua terra, os Deni decidiram tomar o destino nas próprias mãos e começaram a cortar trilhas e colocar sinais ao longo da fronteira de sua terra, em setembro de 2001.

© Greenpeace/Daniel Beltra

Durante a demarcação, 13 voluntários de vários países apoiaram os Deni - cozinhando, mudando os acampamentos, oferecendo assistência médica e escrevendo updates da floresta. No dia 16 de outubro de 2001, o governo brasileiro assinou a Portaria Demarcatória e concordou em finalizar a demarcação da Terra Indígena Deni, no coração da floresta amazônica.

11 de Setembro 2001
Rios Juruá e Xeruá


Já chegamos ao nosso destino: a boca do rio Xeruã. Como os demais, este também está com nível das águas bem baixo. Aqui foi iniciado o trabalho com os Deni e é aqui também que o nosso barco, o Comandante Sávio, ficará ancorado até o fim. As águas do Juruá são calmas, com botos cor-de-rosa subindo preguiçosamente à superfície. Há uma praia, onde o barco está ancorado e, na outra margem, algumas casas de ribeirinhos. A floresta ergue-se a alguns metros de distância. Belo, como tudo aqui.

Logo ao chegarmos foi construído um pequeno abrigo na praia, semelhante ao que faremos para acampar no mato. Os construtores, amazonenses com experiência neste tipo de coisa, garantem que ele aguenta várias barracas penduradas. Um pouco difícil de acreditar, mas tudo bem!

Também nesta praia localiza-se o campo de futebol (na verdade, areia com dois paus em cada extremidade - as traves). Na partida inaugural, o Brasil ganhou de 4 a 2 do resto do mundo, sendo Marcinho Carioca o artilheiro, com dois gols. Difícil de acreditar, mas tudo bem!

A equipe está praticamente completa. Paula, Petros e Samuel já foram para o barco Zumbi, no rio Cuniuá, onde sua equipe trabalhará. Só nos encontramos agora, no final, exceto a Paula, que vai embora mais cedo. E aqui chegaram Nilo, Janine, o pessoal da CIMI e os Deni. Logo, está bem cheio, com redes por todo o lado, à noite.

O número de mosquitos aumentou bastante, mas o calor é forte, dificultando o uso de roupas com mangas compridas durante o dia. E, então, iniciamos o trabalho de demarcação da terra Deni e hoje é o segundo dia. Trabalho pesado, abrindo trilhas na floresta que corresponderão aos limites do seu território. Ainda há muitos ajustes por serem feitos para otimizar as ações, mas o importante é que todos estão empolgados e acreditando no que fazem - pré-requisitos essenciais para que qualquer trabalho dê certo.

Márcio


12 de Setembro de 2001
Rio Juruá


OOlá! Meu nome é Karen e sou uma das voluntárias que irão ajudar na autodemarcação das terras Deni. Tenho 27 anos, sou agrônoma de profissão e ambientalista de coração. Tenho também um filhinho, Pedro, que vai fazer três anos em dezembro e que ficou com minha santa irmã em São Paulo. Valeu, Fá, pela força - sem você eu não poderia estar aqui!

Cheguei em Manaus na segunda-feira, dia 10 de setembro, vindo de uma viagem de mais de 30 horas e com 8 horas de diferença de fuso. Resultado: estava morta de cansaço e completamente "zonza" pela diferença de horário.

Ontem foi lançado o projeto de autodemarcação da terra Deni durante uma coletiva de imprensa a bordo do navio do Greenpeace, o MV Arctic Sunrise, que está neste momento no porto de Manaus.

A coletiva foi boa, apesar de estarmos todos chocados com a violência nos Estados Unidos. Este dia vai ficar gravado na história, mas há de chegar o tempo em que todos os conflitos poderão ser resolvidos de maneira pacífica, sem a perda de vidas humanas.

O Raku, chefe da aldeia Marrecão dos Deni, que está participando da autodemarcação, estava presente na coletiva. Hoje de manhã, ele viu com orgulho seu rosto estampado nos principais jornais da região.

Estou verdadeiramente feliz por estar aqui! Conhecer de perto a vida de brasileiros que quase não aparecem em mapas e que fazem um esforço tremendo para ter sua cultura, sua terra, sua gente preservadas para seus filhos, netos, netos de seus netos. Hoje este e-mail foi grande, mas espero que algo dentro de todo mundo desperte para ver o que está acontecendo neste País - o mesmo de norte a sul.

Karen

 

Steve, um dos voluntários da expedição de 2001, envia notícias da Terra Deni via satélite, enquanto um dos índios o observa.
© Greenpeace


14 de Setembro de 2001
A bordo do barco Comadante Sávio, Rio Juruá


O trabalho prossegue. Alguns ajustes após o retorno do Manuel e o ritmo deve aumentar na próxima semana, com os grupos já acampando na floresta.


Tenho tido a oportunidade de realizar atendimentos médicos, seja envolvendo os membros da nossa equipe ou ribeirinhos. Algumas doenças envolvendo minha especialidade e vários casos de lesões cutâneas por contato com “potó”, um pequeno inseto que causa dermatite dolorosa na pele (como uma queimadura). Eu também provei isto e realmente dói. O problema é que ele é atraído pela luz. Durante o jantar e mesmo após, vários insetos ficam dançando ao redor da lâmpada. Um ventilador estrategicamente colocado faz com que todos os insetos sejam jogados sobre quem estiver sentado. Vamos implementar as medidas de segurança, isto é, desligar o ventilador! Sem necessidade de chamar o CDC, por enquanto! Lógico que também tem os hipocondríacos de plantão, sempre ansiosos por um remedinho ou um curativo a mais. Como sempre.

Na quarta-feira, fomos à aldeia Morada Nova, uma das maiores, onde vivem mais de 100 Deni, incluindo alguns que estão conosco. Há um pequeno posto de saúde lá, onde um enfermeiro faz atendimentos de vez em quando. O patarahu (chefe) também é o agente de saúde, mas estava impossibilitado de trabalhar devido à infecção intestinal. Havia remédios para tratar amebíase, mas as mais básicas medidas preventivas eram ausentes. Paradoxal, mas típico: gastando dinheiro com tratamento quando profilaxia poderia prevenir casos e ser muito mais barato. Orientei-o acerca do uso de água e alimentos e pretendo fazer o mesmo com os índios de outras aldeias.

Jan testou o rádio, sob os olhares curiosos dos Deni, sempre dispostos a nos ajudar e também a rir e brincar conosco. Um inclusive me ensinou passos de suas danças!

Na saída, um banho nas águas frias do Juruá. E então mais um paciente: Janine pisou em algum peixe ou arraia, espécies que têm veneno em seus espinhos, mas conseguimos resolver com um analgésico potente. Se doeu? Não, obrigado, não senti nada...eheheh (espero que Janine não leia isso!). É um acidente doloroso.

A oportunidade de conversar com os Deni sobre sua cultura e modo de vida é unica. Muitas informações interessantes a respeito de lendas e crenças, costumes como festas e atividades diárias e muito mais. Quero aproveitar ao máximo, pois todos vão para a floresta daqui a poucos dias. E eu fico no Comandante Sávio. Bom, talvez Manuel e Cees (o holandês responsável pelas comunicações, que substituirá Tim) possam me contar lendas e crenças do povo holandês....

Márcio



15 de Setembro de 2001

Hoje não fui para o campo, fiquei no barco recebendo treinamento de rádio, primeiros socorros, lendo a respeito das cobras e insetos venenosos desta região e o que se deve fazer se algum acidente acontecer em campo. As normas de segurança são muito importantes, pois o hospital bem equipado mais próximo fica em Carauari, há uma hora de vôo de onde estamos.

Os trabalhos estão divididos em três equipes. Todas elas têm, em média, cinco Deni, dois técnicos e quatro voluntários do Greenpeace. Os Denis fazem todo o trabalho físico e técnico: eles preparam os equipamentos, calculam as medidas no teodolito (um aparelho especial de topografia) e abrem as picadas (trilhas) de mais ou menos três metros de largura usando facões e uma moto-serra, seguindo a orientação do aparelho. Os técnicos ajudam quando preciso. As equipes de voluntários vão apenas dando suporte com o rádio, água e comida.

Os Deni são um povo muito bem humorado. Hoje, ao chegarem após 9 horas de trabalho, ainda foram se divertir jogando futebol com todo mundo na praia.

Ao entardecer, o Flávio, capitão do Comandante Sávio, chegou de uma pescaria trazendo uma variedade de peixes para o jantar. Tinha tucunaré, piranha, tambaqui, pacu, aruanã e jaraqui. Junto com os peixes, o Flavio trouxe um jacaré-açu de dois metros, amarrado. Na idade adulta, essa espécie chega a atingir 6 metros de comprimento! Todos estranharam a presença de um jacaré dentro da voadeira, mas é que, durante a pesca, ele se enroscou numa das redes e o único jeito era puxar o bicho e amarrá-lo para, em terra firme, cortar a rede para libertá-lo. Tem que ter muita coragem pra amarrar um bicho daqueles!...

Depois de uma peixada, só me resta agora ir dormir, pois amanhã será "O" dia!!

Karen

 

 

Um dos índios fixa uma placa para sinalizar a demarcação no perímetro da Terra Deni.
© Greenpeace


17 de Setembro de 2001

Um calor, mas um calor!... Essa é a melhor descrição da sensação que tive ontem, dentro da mata. Estávamos em uma trilha que vem sendo aberta há três dias.

Começamos o dia percorrendo 3 km de picada. Ontem, conseguimos abrir mais 800 m. A média é baixa, mas estamos sem o helicóptero, que foi servir de base de segurança junto ao barco. As autoridades brasileiras ainda não haviam liberado a aeronave. Sem o helicóptero aqui, não podemos pernoitar no mato e, todos os dias, as equipes têm de caminhar para chegar ao ponto onde parou no dia anterior, além de ter de voltar um longo trecho no final do dia.


Transportamos em média 50 litros de água, comida para 12 pessoas, gasolina para a moto-serra, o teodolito, rádio, GPS (GeoPosicionamento por Satélite - aparelho usado para dar a localização exata de onde estamos).

A picada não parece com aquelas abertas em parques urbanos. É um caminho com muito barro, água e muitos troncos, cipós e folhas no chão. Para andar 3 km, demoramos quase 40 minutos. Quando o trabalho começou, fiquei impressionada com a facilidade dos Deni manejarem os equipamentos, com uma precisão que surpreendeu a todos. No final do dia, os técnicos fizeram leituras e cálculos com o GPS, e constataram um erro. Nestas condições, isso é normal - o erro é de 40 centímetros em 4 quilômetros percorridos.

Durante os trabalhos na parte da tarde, encontramos uma andiroba, árvore nobre da Amazônia, derrubada. Havia sido cortada ilegalmente por madereiros. A árvore tinha um tronco com mais de 1 metro e meio de diâmetro e 10 de comprimento. Já estava pronta para ser retirada do mato na próxima cheia do rio, que deve começar nos próximos meses. Ao avistarem a andiroba derrubada, os Deni acham ruim. "Deni não achou bom!", disse Vaisuvi Deni, o operador do teodolito. A extração de madeiras em terras indígenas é crime. Com este trabalho, os Deni estão desenvolvendo a consciência dos limites de sua terra e a importância de zelarem pelos recursos existentes nela.

Voltamos tão cansados que só deu tempo pra lavar a roupa, tomar banho, jantar e cair na rede...

De noite fez um frio!... O dia amanheceu encoberto. Revezamos as equipes e hoje o dia foi de descanso para alguns.

Espero que o tempo firme e não chova.

Karen


 

 



24 de Setembro de 2001

Estamos no sexto dia dentro do mato. Estamos quase chegando em terra firme, mas esta ainda é uma região que alaga. Esta é a primeira vez que conseguimos mandar mensagens de dentro da floresta. Aqui estamos todos bem. Às vezes, é difícil conciliar tecnologia e floresta ao mesmo tempo. Demora, mas não é impossível!

Várias coisas aconteceram desde a última menssagem. Partimos há cinco dias, atrás do Comandante Sávio. Foram formadas duas equipes: a equipe Alfa e a equipe Bravo. Mais uma equipe, a Zumbi, já estava trabalhando, mas em outra região - no rio Cuniuá.

Faço parte da equipe Bravo. Cada uma das equipes tem, em média, 13 integrantes. Cinco Deni estão na nossa equipe: Babá e Pádi são da Aldeia Boiador, Mahuru e Vabishi são da aldeia Itaúb, ambas na região do Rio Xeruã; Mavahari é da aldeia Cidadezinha, região do rio Cuniuá. Liberato, um mineiro de Belo Horizonte, é o técnico em topografia, que ajuda e orienta os trabalhos com o teodolito. Jailes, um amazonense, é o indigenista da equipe e trabalha para o Cimi, uma das ONGs que estão envolvidas no trabalho de autodemarcação. O médico chama-se Ian; ele é inglês e especializado em doenças tropicais. Somos quatro voluntários: eu, claro, paulista; Aguinaldo, um amazonense de 21 anos que trabalha muito; Jan, uma alemã que está cursando o último ano de Ciências Políticas; e Steve, da Suécia, que foi soldado durante oito anos.

Antes de virmos para a floresta, a picada estava sendo aberta pelas duas equipes e tinha cinco quilômetros de extensão. Para montar o primeiro acampamento foi preciso carregar tudo literalmente nas costas: mantimentos, equipamentos de comunicação, lona, redes e pertences pessoais! Foi bem difícil, pois estávamos carregando um peso aproximado de 400 kg. Ainda bem que contamos com a ajuda do time Alfa para transportar e montar o primeiro acampamento. Foi o primeiro desafio! O dia todo de trabalho duro. No final do dia, estávamos mortos e ensopados! A boa notícia é que os Deni descobriram um igarapé a mais ou menos um quilômetro onde pudemos tomar banho - eu já havia até perdido as esperanças!...

Andar em uma trilha recém-aberta não é lá tarefas das mais simples: tem muito galho e tronco pelo chão, igarapés para cruzar, brejos... Mas conseguimos e estamos todos sãos e salvos!!!

Combinamos que íamos mudar de acampamento a cada quatro dias, pois os Denis abrem em média 1,5 km de picada por dia. Esta cartinha já está sendo enviada do segundo acampamento. Aqui o calor é constante e os mosquitos também, principalmente um chamado de carapanã, uma espécie de pernilongo bem nutrido. A presença
destas criaturas "adoráveis" nos obriga a vestir camisetas de mangas compridas, calças e meias todo o tempo!!! Como dormimos em redes (na Amazônia, é muito mais seguro que barracas), o mosquiteiro é um equipamento obrigatório para garantir e preservar o sono.

O acampamento é quase uma casa. Montamos sempre uma tenda de 15 metros de comprimento por três de largura, onde são colocadas todas as redes. A tenda é montada com troncos, forquilhas e envira (fibra de casca de árvore). Para cobertura, usamos lonas azuis de caminhão. Tem um fogão de chão, onde cozinhamos tudo com lenha. Eu sou a única mulher do grupo Bravo. Comida e tradução é comigo mesmo! Ainda não sei lidar muito bem com o terçado (facão) e, para minha própria segurança e satisfação, preferi ficar pilotando o fogão. Adoro cozinhar e está sendo muito legal fazer comida pra tanta gente diferente.

Comida aqui é um fator tão importante quanto a água, pois o trabalho - tanto na picada como no acampamento - é pesado. Comer significa repor as energias e se a comida for ruim, já viu né!!!

De manhã, junto com o Aguinaldo, o Jailes e o Jan, preparo o café da manhã e o almoço para os Deni levarem para a trilha. Um voluntário vai junto com eles e eu já começo a preparar o almoço para quem ficou. Depois do almoço, tem que lavar louças - se essa tarefa já não é muito agradável tendo à mão uma pia e torneira, imagina ter que fazê-la agachada, com muito mosquito em volta e de caneca. Mas, é bem divertido!!!

A gente faz sempre de tudo um pouco: buscar lenha, montar os equipamentos de comunicação (painéis solares, rádio, laptops, baterias) e tudo tem que estar num lugar seguro, à prova de água. A mudança de acampamento foi há dois dias. Desta vez fizemos tudo sozinhos. Os Deni trabalharam na trilha e depois montaram as estruturas da tenda; nós carregamos os equipamentos por 5 km, em duas viagens. No dia da mudança, os Deni caçaram quatro queixadas (um tipo de porco do mato) - são mais ou menos 70 quilos de carne. A caça é tão importante para os Deni que é considerado um bom Deni quem for um bom caçador. Depois de caçadas, os Deni limparam e “moquearam” (uma espécie de cozimento misturado com defumação) as queixadas. Temos carne para vários dias, mas como a idéia é carregar a menor quantidade de peso possível, uma parte da carne vai para o Comandante Sávio para alegria da tripulação.

Durante a noite, nos sentamos em roda para contar histórias - de “branco” para os Deni e de Deni para os “brancos”, como disse o Vabishi. Nessas horas, nem a língua é empecilho. O que não consigo traduzir, a mímica resolve. Ontem à noite, foi dia de história de onças e de ações do Greenpeace contra madeira ilegal ao redor do mundo.

Bom, depois de seis dias, esse e-mail já está grande demais. A nossa relação com os equipamentos e telefones satelitais vem melhorando a cada dia e, hoje, enviar as mensagens foi bem mais fácil. Dependemos da posição exata dos satélites para conseguirmos receber e enviar mensagens através do telefone satelital...

Mesmo com uma diversidade cultural tão grande neste grupo, fazemos um grande esforço para nos entender. São muitas culturas, muitas línguas, muitos costumes em um mesmo lugar... Mas vale muito a pena! Nossas ações podem fazer a diferença!

A madeireira WTK comprou terras que se sobrepõem à terra Deni. Os Deni sabem disso e sabem também que este é o único jeito de preservar seu patrimônio: demarcando o seu território.

Karen