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11-05-2004 - Passo Fundo (RS)
Bunge admite uso de transgênicos durante inspeção de biossegurança do Greenpeace
Empresa desrespeita lei e não rotula óleos de soja Soya e Primor fabricados na unidade de Passo Fundo; ativistas do Greenpeace colocaram faixas e placas para denunciar contaminação transgênica

Ativistas do Greenpeace iniciaram hoje uma inspeção de biossegurança na unidade de processamento de soja da Bunge Alimentos em Passo Fundo (RS), mas foram retirados da empresa por policiais. O objetivo era verificar a documentação sobre a origem da soja utilizada na unidade, mas o gerente da fábrica se recusou a receber os representantes da organização ambientalista. Por telefone, o diretor de Comunicação da empresa, Adalgiso Telles, admitiu que a unidade recebe soja transgênica das plantações gaúchas. Uma vez que não é possível detectar o DNA geneticamente modificado em produtos como óleo de cozinha, a única forma de se garantir a rotulagem do óleo de soja transgênico é identificando a origem da matéria-prima.

Durante a ação, os ativistas colocaram placas e faixas em frente à unidade da Bunge em Passo Fundo, denunciando a contaminação transgênica no local. Eles demandaram também que itens produzidos nessa unidade – como os óleos de soja Soya e Primor – sejam devidamente rotulados, conforme determina a lei (1). A maioria da soja geneticamente modificada plantada no Brasil está concentrada no Rio Grande do Sul. O município de Passo Fundo está localizado na região de maior incidência de plantios transgênicos no Estado gaúcho.

“A falta de identificação da matéria-prima utilizada nessa fábrica implica na falta de identificação do produto final. E isso fere diretamente o direito do consumidor brasileiro de saber o que está comendo”, disse a coordenadora da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace, Mariana Paoli. “A empresa Bunge, que na Europa garante produtos livres de transgênicos até mesmo para a alimentação animal, deveria respeitar o direito e a vontade (2) dos consumidores brasileiros e garantir produtos livres de transgênicos também aqui no Brasil”, afirmou.

Embora a legislação brasileira seja bastante clara quanto à exigência de rotulagem, essa determinação não é respeitada pelas empresas ou fiscalizada pelo governo. Segundo as leis nacionais, a rotulagem deve ser garantida em todas as etapas da cadeia de produção, da plantação ao produto final. O decreto de rotulagem determina que produtos que tenham sido fabricados a partir de transgênicos, mesmo que não contenham o DNA transgênico em sua composição final, devem trazer a frase “fabricado a partir de (produto) transgênico” em seu rótulo. O DNA de muitos produtos – como óleos, lecitinas e margarinas – é destruído no processo de fabricação, o que impossibilita a detecção do gene transgênico. Daí a importância da informação sobre a origem da matéria-prima utilizada em sua fabricação.

“Duas grandes marcas de óleo de soja, que os brasileiros utilizam todos os dias para cozinhar, são fabricadas aqui em Passo Fundo, no centro da contaminação genética da soja brasileira. A Bunge e o governo brasileiro têm o dever de assegurar que o consumidor seja devidamente informado sobre os produtos que está comprando”, afirmou Mariana.

A atividade faz parte da expedição “Brasil Melhor sem Transgênicos”, que o Greenpeace realiza pelo País desde meados de abril. O navio Arctic Sunrise está no Brasil para exigir que o país seja livre de transgênicos.
(1) Decreto 4680, de 24 de abril de 2003, e Portaria 2658, de 22 de dezembro de 2003. De acordo com esse decreto, todos os produtos que contenham mais de 1% de matéria-prima transgênica, devem ser comercializados com um rótulo específico, que contenha o símbolo transgênico em destaque, junto com as seguintes frases: “(produto) transgênico”, ou “contém (matéria-prima) transgênico”. Além disso, os produtos de animais alimentados com transgênicos (leite, ovos e carne) também devem ser rotulados.

(2) Pesquisa Ibope, realizada com dois mil brasileiros em dezembro de 2003.
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