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Diário

02.08.05 - Morais de Almeida – Novo Progresso – Castelo dos Sonhos (PA)

Flona de Altamira: esperando para ser protegida!

Aqui em Morais Almeida, a vila é pequena e todos estão curiosos com a nossa presença. Alguém da nossa equipe ouviu dois homens comentando que não gostam de ‘gringos’. O ambiente é intimidador.

Acordamos ainda mais cedo que no dia anterior. Às 6h30 estamos de partida para a Floresta Nacional (Flona) de Altamira, a 22 km daqui. Apesar de ter sido criada em 1998, até hoje a Flona não foi sequer demarcada. Pior: foi completamente invadida por madeireiros e grileiros que estão saqueando os recursos naturais e desmatando imensas áreas. No nosso sobrevôo de domingo (31/07) fizemos várias imagens da destruição, inclusive com tratores e outras máquinas trabalhando.

Nosso objetivo é colocar uma cancela bloqueando a estrada clandestina que dá acesso à Flona. Depois, vamos entregar a chave da cancela para o Ibama, em Novo Progresso. O Ibama é responsável por zelar por esta (e muitas outras) unidade de conservação. O avião está sobrevoando nossos carros para dar apoio.

Chegamos à entrada da Flona as 7h30. Escolhemos uma castanheira para colocar nosso aviso. É difícil acreditar que aqui seja uma área protegida, pois está totalmente desvastada. Foi queimada recentemente. Cada um sabe o que deve ser feito. Alguns cavam o chão enquanto outros misturam o cimento. Fixamos a placa com o nome da expedição: “BR-163 – Amazônia: Salvar ou destruir?”. Na cancela, colocamos a placa: “Área esperando para ser protegida”.

Quando a atividade está concluída, o avião avisa que um carro e uma moto se aproximam. Guardamos todos os equipamentos e partimos. Deu tudo certo. Deixamos o nosso recado. Ficamos imaginando a reação dos invasores ao verem nossa “instalação”.

Às 11h30, 100 km depois, estamos em Novo Progresso, o maior pólo madeireiro no lado paraense da BR-163. No ano passado, o agricultor Adilson Prestes foi assassinado aqui por denunciar extração ilegal de mogno. Pouco antes de entrarmos na cidade, uma placa na porteira de uma fazenda avisa: “Aqui é do Brasil: fora gringos”.

Vamos até o recém-criado escritório do Ibama na cidade e entregamos a chave da cancela para o chefe do posto, Marcus Bistene. Ele diz que o órgão está ciente dos problemas com a Flona de Altamira e que já pretendiam ir até lá. Entretanto, têm apenas 4 fiscais para visitar 1.800 pontos de desmatamentos já identificados ocorridos desde 2003. Bistene também nos informa que todos os fazendeiros do município combinaram atear fogo à floresta ao mesmo tempo, no próximo fim-de-semana.

Parece incrível que, com tantos problemas, o Ibama sequer tivesse um escritório aqui até dois meses atrás. Enfim uma atitude foi tomada. No local vemos a presença de policiais militares e federais para garantir a segurança do pessoal do Ibama. Na estrada também vimos um acampamento organizado pelo Exército, dando apoio. Entretanto, ainda parece pouco, diante da magnitude dos problemas. Afinal, aqui é do Brasil ou de alguns espertalhões que pensam que terra pública é terra de ninguém e que floresta boa é floresta queimada? Aqui é do Brasil, mas o governo brasileiro precisa estar mais presente, para cuidar bem do seu patrimônio ambiental.

Durante a rápida passagem pelo escritório do Ibama de Novo Progresso encontramos dois madeireiros sendo multados. Ao deixar o local, percebemos que estávamos sendo seguidos. Fomos escoltados até a estrada, na saída da cidade. Ficaram parados, nos observando, até desaparecer na poeira. Chegamos em Castelo dos Sonhos no final da tarde.







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