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Diário

03.08.05 - Castelo dos Sonhos (PA)

Antes, mata alta. Hoje, destruição e violência

Castelo dos Sonhos faz parte do município de Altamira, considerado o maior do mundo em área. A sede do município – a cidade de Altamira, cortada pela rodovia Transamazônica, na margem esquerda do rio Xingu - encontra-se a 1.100 km daqui. Isso torna a ausência do Estado, aqui, ainda mais cruel. Apesar do nome de conto de fadas, é um dos lugares mais violentos por onde vamos passar.

Esta manhã fomos visitar um acampamento de cerca de mil trabalhadores sem-terra a uns 15 km da vila. Gente sofrida, mas também gente forte, resistente, batalhadora. Eles estão acampados aqui há 40 dias. A maioria é de ex-trabalhadores da indústria madeireira, que vem sofrendo baixas e demitindo pessoal, por causa das recentes restrições adotadas pelo governo na região, desde a morte de irmã Dorothy. O curioso é que não estão revoltados com relação a isso. Ao contrário, não têm o desejo de retornar à condição anterior. Querem é um pedaço de terra.

O acampamento leva o nome de Bartolomeu Morais da Silva, o Brasília, líder de trabalhadores rurais de Altamira, assassinado em julho de 2002. Essa Amazônia é assim. Em cada lugar vamos encontrando a lembrança de quem morreu lutando por terra e por Justiça. Talvez, um dia, os poderosos da região percebam que cada morte, cada assassinato cometido não neutraliza seu adversário: torna-o mais fozrte.

“Nunca o Brasil encarou essa situação”

M. F. S, 61, chegou aqui em 1977, quando a estrada foi inaugurada. “Eu fazia o percurso de Itaituba para Cuiabá e parei aqui no km 1.000. Durante dois anos trabalhei aqui, abrindo fazenda. Todo a vida eu conheci isso aqui sendo uma área de conflito, essa área pesada aqui”, ele conta.

“O que a gente mais precisa é ter terra pra instalar a população e nunca o Brasil encarou essa situação do pessoal aqui. A calamidade aqui é feia. Eu conheço buraco aqui que tem duas, três caveiras dentro. Eu conheço acostamento na beira da estrada que tem gente morta pelos fazendeiros. Se for necessário comprovar eu vou mostrar.”

“Os fazendeiros que vieram aqui mansos não aguentaram e se foram. Outros entraram com braveza. O trabalhador vinha pra trabalhar, uns do Mato Grosso, outros do Nordeste, entrava aqui, trabalhava 15, 20 dias. Uns fugiam pra não morrer e outros se acabaram aqui dentro. Matado, por pistoleiro”.

E como era a floresta aqui? “Mata alta, mata alta. Hoje de manhã eu varei do Castelo aqui de bicicleta, só porque eu queria conhecer a situação do que eu conheci 30 anos atrás. Você via capivara, isso aqui era conhecido como córrego das capivaras. Você via bastante no meio da estrada, hoje você não vê mais nada. O grito do macaco do mato, o grito dos pássaros. O pássaro que você via cruzando as estradas. Quem acabou? O homem. Tudo ilegal. Eu sei que isso aqui é área da União, foi invadido, tudo pelo pessoal, os grandes poderosos. Aqui tem fazendeiro que tem terra que dava de assentar esse pessoal todinho e eles ainda ficavam com metade da terra pra eles. A terra tá na mão dos poderosos. É só fazenda e não tem gado. E a madeira está indo pra fora, sem licença e sem documentação”.

“Na boca da 12”

O pedreiro e carpinteiro B. M. L., 51, era amigo pessoal de Brasília. De acordo com ele, a morte do líder dos trabalhadores deveu-se a um conflito de terras ocorrido neste exato local, em Castelo dos Sonhos. Trabalhadores sem terra haviam ocupado uma área da União grilada por um fazendeiro e foram expulsos com violência, com auxílio da polícia. Agora, há 40 dias, estão acampados em frente à fazenda, aguardando uma atitude do governo federal. Na fazenda ao lado, jagunços ficam à espreita e não os deixam ultrapassar a porteira. Apesar da profissão de carpinteiro ele quer ter um pedaço de chão para voltar a trabalhar na roça, como fazia com os pais, na juventude.

“O Brasília era uma pessoa que todo mundo gostava dele. Quando ele morreu teve um grande movimento do pessoal. Ele era uma pessoa que chegava com você aqui e dentro de 5, 6 minutos ele demonstrava que ele era humano, não tinha maldade com ninguém. Eu conheci ele muitos anos e nunca vi ele nem com um canivete na cintura”, conta.

“Eu estive conversando com ele três dias antes. Quando foi no domingo ele saiu, pra um lugar que ninguém sabe. Na segunda-feira falaram que ele não tinha dormido em casa e eu achei aquilo estranho. Foi quando me falaram: `Parece que o nosso amigo morreu`. Em seguida chega um telefonema que tinham achado um corpo, num devido lugar. Era o Brasília. Doze tiros no corpo”.

“Nós temos quase certeza que o problema foi devido a essa terra aqui em frente, do outro lado da estrada, onde foram presos 19 pessoas, inclusive eu. Eu estava nessa terra do governo e fui preso, igual a um bandido. Aqui toda terra é pública. Se tiver algum documento, é falso”.

“Eu conheço uma pessoa aqui que`tem` 300 km de terra, daqui até o rio Iriri, que se você entrar lá pra cortar uma vara, cêtá na boca da 12. Se eu revelar a situação aqui no Castelo, você já saía correndo. Melhorou um pouco de um ano pra cá, com a presença das autoridades, do Exército. Mas ainda não suficiente. O suficiente aqui pra nós é entregar pra cada pessoa o seu pedaço de terra. Entregar com recurso, porque só entregar a terra não significa nada”.

“Eu tenho esperança que o governo tome uma providência com essa situação, senão cada dia continua essa situação maldosa e difícil que não poderia acontecer no nosso país e infelizmente acontece”.







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