09.08.05 - Cláudia (MT)
Caso de polícia
Hoje vamos denunciar um assassinato encoberto pela impunidade. Acordamos
muito cedo. Está um pouco frio e a neblina encobre os pequenos pedaços
de mata à beira da estrada para Cláudia. Depois de duas horas de viagem
chegamos ao local onde está a vítima. Estendemos as letras C e R à
esquerda do corpo. Depois, o M e o E à direita. Cada letra tem 20 metros
de altura, por cerca de 10 de largura. Uma enorme castanheira
recém-cortada forma o “I” da palavra “crime”. Nosso avião, com
fotógrafos e cinegrafista a bordo, dá várias voltas, até que os
jornalistas consigam a imagem ideal.
A equipe está com uma tremenda energia positiva. Estamos muito felizes em podermos fazer
isso, mostrar para o mundo o que está acontecendo aqui, nesse pedaço esquecido do
Brasil. Os repórteres se contagiam e também ajudam a recolher as letras.
Todo esse torpor causado pela sensação de estar fazendo a coisa certa nos deixa
um pouco relaxados, o que não é prudente nesta região violenta. O avião
chama a atenção na cidade próxima e um carro branco, com dois homens, vem
ver o que está acontecendo. Eles se identificam como vereadores de Cláudia.
Nós dizemos que estamos fazendo uma filmagem. Eles vão embora.
Terminamos de guardar tudo e partimos. Ao passarmos ao lado da cidade, eles nos param na estrada.
Dizem que chamaram a polícia, pois teríamos invadido uma propriedade particular.
Instantes depois, chega um carro da PM. Desce um cabo desarmado, com a camisa fora das calças.
A situação parece meio estranha e ficamos preocupados com a segurança de
todos. O cabo diz ter sido chamado pelo prefeito da cidade, com o qual aparentemente conversa, o
tempo todo, pelo celular. Ele pede que o acompanhemos até o quartel da PM.
No quartel, o cabo e um tenente dizem querer apenas averiguar o que fomos fazer ali. Contamos sobre
a expedição na BR-163 e dizemos que fomos ali denunciar um crime. A castanheira é
uma espécie protegida por decreto federal desde 1994. Não pode ser derrubada por
motivo algum. Nesse momento a postura dos policiais em relação a nós muda
completamente e torna-se mais amistosa. Perguntam para quem trabalhamos e se estamos realizando
algum trabalho para o Ibama.
Ao saber que somos do Greenpeace, o tenente Gomes, muito jovem, nos conta que sua monografia,
na graduação pela academia militar, foi sobre a necessidade de o Estado do Mato Grosso
ter batalhões de polícia ambiental em todo o interior. Hoje há um único
batalhão, na capital Cuiabá.
Perguntamos ao tenente o porquê de seu interesse na temática ambiental. “Meu pai
é funcionário do Ibama na cidade de Barra do Garças (MT). Desde criança
eu convivi com histórias de apreensão de equipamentos de pesca predatória,
madeira ilegal, essas coisas. Fui tomando gosto”, diz ele. “E o que você acha do
Ibama?, alguém pergunta. “O Ibama precisaria ter um efetivo muito maior para poder atuar
em relação aos ilícitos ambientais dessa região”.
No final, os dois nos elogiam e dizem que nosso trabalho é muito importante para a sociedade.
Na saída, o repórter da TV Bandeirantes vai atrás de um dos homens que se
apresentaram como vereadores, para tentar entrevistá-lo. Ele não diz nada e desaparece
por uma porta lateral.