27.07.05 - Santarém (PA)
Porto da Cargill em Santarém desafia Constituição brasileira
Devido ao atraso de mais de três horas no vôo, chegamos a Santarém na hora do almoço. Para não chamar muita atenção, ficamos hospedados na pequena vila turística de Alter do Chão, uma praia de rio a cerca de 60 quilômetros da área urbana. Passamos desapercebidos em meio às dezenas de turistas, muitos deles estrangeiros.
Nos últimos cinco anos, a instalação de um porto graneleiro da empresa Cargill transformou Santarém, às margens do rio Amazonas, em um pólo de produção de soja de intenso crescimento. A construção do porto estimulou a migração de dezenas de produtores do Mato Grosso e do sul do Brasil para a região, em busca de terras planas, de baixo custo e clima favorável. Aqui, eles são chamados de gaúchos e andam pela cidade ostentando suas caminhonetes 4X4. Eles também compraram todas as terras ao redor da cidade, forçando centenas de pequenos agricultores a abandonar suas terras e se mudar para a periferia da área urbana.
Em maio de 2004, diversos grupos sociais da região e ativistas do Greenpeace foram agredidos aqui, quando protestavam contra os impactos socio-ambientais causados pela instalação do porto da Cargill em Santarém. A obra foi contestada pela Justiça desde o início. Até hoje, a Cargill ainda não realizou estudos de impacto ambiental das instalações, amparada por diversas decisões judiciais provisórias. E, assim, vai criando o clima de “fato consumado”.
Enquanto isso, os pequenos lotes de terra dos trabalhadores rurais – geralmente ocupados por pequenas lavouras e árvores frutíferas para a subsistência e abastecimento da cidade – vão desaparecendo, para dar lugar a campos de soja que se perdem no horizonte. Florestas secundárias em avançado estado de regeneração são queimadas. Os gaúchos, a Cargill e comerciantes da cidade chamam isso de desenvolvimento. Mas, na verdade, o que se vê é concentração de renda, com crescimento da miséria, da pobreza e da violência na periferia de Santarém.