28.07.05 - Belterra (PA)
Soja:“Desenvolvimento? Só se for pra eles!”
No final do século 19 e início do século 20, a Amazônia viveu um período de intenso crescimento econômico, fornecendo borracha para o restante do mundo. A riqueza dessa época ainda pode ser observada na arquitetura art nouveau de cidades como Manaus e Belém. A ironia da história é que os ingleses, que financiaram esse boom econômico, encontraram um meio de reduzir os custos de produção levando as sementes da Hevea brasilienses para plantar na Malásia e na Indonésia. A crise da borracha que se seguiu foi sem precedentes.
Na década de 40, porém, a Segunda Guerra Mundial deu novo alento à produção local, depois que o Japão conquistou os seringais do sudeste asiático. Nessa época, a Ford decidiu implantar, no Pará, a sua própria produção de borracha, ajudando no esforço de guerra dos EUA. A 12 horas de barco de Santarém, foi construída a vila de Fordlândia, toda com casas em estilo americano, ruas em traçado cartesiano e até mesmo hidrantes nas esquinas. Ao redor da cidade foi estimulada a plantação de milhares de seringueiras. Atualmente, essa cidade se chama Belterra.
Hoje, em nossa visita, ficamos chocados ao ver que a seringueira, ali, é espécie em extinção. Só se vêem campos de soja, arroz e milho, por todos os lados. Às vezes, no meio da plantação, vemos uma castanheira solitária, tentando resistir inutilmente.
No centro da vila encontramos Raimundo Nonato, 42, que quando adolescente chegou a “cortar seringa”, como se chama o processo de extração da borracha. Hoje, Nonato é funcionário público municipal e cuida de algumas dezenas de seringueiras em um parque ao lado da prefeitura. “Aqui foi um dos primeiros seringais de Belterra e já existia quando a Ford chegou”, ele conta. É também um dos poucos restantes.
Apesar de o pequeno boom levado pela Ford ter acabado após a guerra, a produção de borracha continuou garantindo a subsistência da população local. Até o final dos anos 1990. “Depois que os gaúchos chegaram, deitaram todas as árvores e só tem soja”. Para Nonato, até o clima de Belterra mudou. “Hoje faz mais calor e tem mais insetos”, diz. As consequências não param por aí. Ele conta que os agroquímicos despejados no campo causam alergia e diarréia nas crianças.
Quanto aos seringueiros, muitos hoje estão aposentados ou se tornaram funcionários públicos. Outros prestam serviços para os gaúchos. “Isso é desenvolvimento? Só se for pra eles”, questiona Nonato.