seu e-mail seu número de sócio



 


Diário

29.07.05 - Alter do Chão – Itaituba (PA)

Estrada e poeira

07h30. É hora de pôr o pé na estrada. No posto de gasolina do trevo de Belterra, o atendente nos informa que a BR-163 está bloqueada por um protesto no km 30. Decidimos ir até lá, ainda que isso signifique andar alguns quilômetros a mais. No caminho, cruzamos com um carro da Polícia Rodoviária Federal, que nos informam que o bloqueio não existe. Fazemos meia volta e seguimos em direção de nosso objetivo: Itaituba.

Nos primeiros 98 km a partir de Santarém, a BR-163 está totalmente pavimentada. Com excessão de pequenos trechos, o asfalto foi arrumado recentemente e podemos desenvolver uma boa velocidade. O problema começa depois.

Paramos por alguns minutos para documentar o lugar onde o sonho da BR-163 vira poeira. É praticamente tudo o que vemos no restante do dia. As rodas dos carros que seguem à frente levantam uma nuvem vermelha densa, que nos envolve e cega, tornando o trajeto muito tenso. A todo momento nos deparamos com um buraco ou uma vala e é preciso desviar. A velocidade oscila de 20 a 40 km/h, chegando a 60 km/h em raros momentos. A troca de marchas é constante, exigindo trabalho dos motoristas. A falta de visibilidade dificulta a identificação do fluxo no sentido contrário. São motos, bicicletas, caminhonetes, ônibus e caminhões. Alguns destes transportam madeira serrada.

Na margem esquerda da estrada vemos diversas fazendas, pastagens onde não se vê o gado. Pelo lado direito, vamos margeando a Floresta Nacional do Tapajós. As placas da reserva, onde se lê “Proibido Caçar”, estão repletas de buracos de tiros.

Às 12h15 paramos no único restaurante de beira de estrada no trecho entre Santarém e Rurópolis, no km 147. A comida chegou rápido: arroz, feijão, macarrão e bife. Café. Estrada e poeira. Em Rurópolis, já a 215 km de Santarém, paramos para abastecer. O nome desse município é uma contradição em termos. Rural é aquilo que não é urbano. Pólis vem do grego cidade, é o oposto. Este é o ponto onde devastação encontra devastação. A BR-163 cruza a Transamazônica. Nos próximos 145 km, até Itaituba, as duas se unem numa rodovia só. Nesse trecho, as fazendas se alargam e a floresta está quase sempre distante no horizonte. Esse foi o sonho dos militares para o Brasil: uma Amazônia toda cortada por estradas que trariam desenvolvimento e garantiriam a ocupação do território. O obstáculo representado pela densa floresta deveria ser eliminado.

Pegamos um pouco de chuva. Um arco-íris à esquerda nos faz lembrar da lenda dos guerreiros da paz em defesa da Terra. Parece uma mensagem. No final da tarde, as nuvens de poeira filtram difusamente os raios do pôr-do-sol. Acabamos de vê-lo na balsa, cruzando o rio Tapajós na direção das luzes de Itaituba que se acendem do outro lado. Balanço do dia: 440 km (incluindo o trecho Alter do Chão-Belterra) percorridos em 11h.







Copyright © 1998 - 2009 Greenpeace Brasil.
Todos os direitos reservados. All rights reserved.