30.07.05 - Itaituba (PA)
Luta de Irmã Dorothy pela Amazônia continua viva
No dia 12 de fevereiro de 2005, a missionária Dorothy Stang vestiu uma de suas camisetas favoritas e foi visitar um assentamento em Anapu, onde viviam pequenos agricultores constantemente ameaçados por grileiros e fazendeiros de gado da região. Irmã Dorothy, defensora dos mais fracos contra os poderosos da região da Transamazônica, sabia que poderia não voltar viva dali. Muitos acreditam que, naquele dia, Dorothy entregou-se a um sacrifício pela causa que defendia. Sua morte ainda ecoa por toda a Amazônia. Pudemos constatar isso em Itaituba.
Itaituba foi, nos anos 80 do século 20, a capital do garimpo de ouro na Amazônia. Seu aeroporto chegou a ser o mais movimentado do Brasil. “Avião aqui era igual urubu, voando em volta da carniça”, conta o piauiense Enéas Pereira da Silva, que trabalha no boteco do porto de Miritituba, do outro lado do Tapajós.
A carniça, no caso, era o ouro, abundante nos rios e igarapés da região. Enéas, como muitos, veio atrás dele. Na cidade, a lei vigente era a da violência. “Eu andava com uma espingarda 20 pendurada no ombro, um 38 de um lado e o facão do outro. Só assim um cabra podia caminhar por aqui. Qualquer esbarrão e era tiro pra todo lado”.
Enéas e todos os outros vieram buscar um sonho. Deixar o país dos pobres e miseráveis para fazer parte da pequena casta com acesso a bem-estar e riqueza no Brasil. A ilusão do brilho dourado das pepitas durou pouco. “Eu cheguei a tirar 2 quilos de ouro por dia no garimpo”. Alguns construiram impérios, com aviões, fazendas e vários garimpeiros a seu serviço. Mas, assim como os sonhos acabam ao se despertar para a realidade, o ouro de Itaituba se foi, deixando o brilho apenas na memória. Os impérios desmoronaram. Hoje, alguns poucos garimpos resistem no entorno da cidade, pálida lembrança de um passado recente que já virou história.
E a madeira? “A madeira hoje está igual ao garimpo. Está tudo se acabando. Se você passasse por aqui um ano atrás, ia ver uma fila de caminhões de madeira esperando para entrar na balsa, a perder de vista”, conta Enéas.
E o que aconteceu? “Foi depois que mataram aquela mulher, aquela... Aquela freira... Como é mesmo o nome?”
Logo após a morte de irmã Dorothy, o governo federal lançou uma série de medidas para conter a devastação ambiental e a violência na Amazônia. Entre essas medidas, destaca-se a proibição da aprovação de novas autorizações de desmatamento, com a interdição de uma área de 8 milhões de quilômetros quadrados na área da BR-163, aqui no Pará.
Por isso, muitas pessoas em Itaituba associam a morte de Dorothy com a decadência do comércio de madeira pelo porto de Miritituba. Itaituba também foi onde o Plano de Ação para a Prevenção e Combate ao Desmatamento, do governo Lula, desenvolveu mais atividades, principalmente de fiscalização, em 2004 e 2005.
Isso tudo demonstra que uma maior presença do Estado pode, efetivamente, ajudar a reduzir o quadro generalizado de ilegalidades ambientais na Amazônia. É triste, porém, que fosse necessária a morte de uma pessoa como irmã Dorothy e a constatação dos elevados índices de desmatamento para desencadear esse processo.