Mensagem da Diretora-Executiva

Carol - Relatório_3

2020: o ano que nos colocou no limite

Olá, muito prazer. Ainda não nos conhecemos, e aqui me cabe a missão de escrever esta carta de apresentação focada no trabalho de um ano em que não estive à frente do Greenpeace Brasil. Por isso, antes de seguir, agradeço ao meu antecessor, Asensio Rodriguez, pela condução deste time aguerrido diante de tantos desafios. Asensio partiu para uma nova fase no fim de 2020, e depois de um período de interinidade, assumi a organização em maio de 2021.

Disclaimer feito, arrisco dizer que olhar para 2020 é ver a corda do coletivo sendo esticada em seu limite. Vivemos – de forma inédita na nossa geração – uma situação global que primeiro nos isolou para depois nos juntar, ainda que metaforicamente. Ou a solução vem pra todos ou ela demora mais a chegar. Poderia ter sido um momento poderoso do mundo, mas não foi. A pandemia escancarou a desigualdade que nos assola, foi pano de fundo fértil para a disseminação de fake news e a anticiência correu solta.

No Brasil, em especial, vários limites foram ultrapassados – e seguem sendo. Muita dor, fome, desamparo e confusão. O Greenpeace Brasil respondeu a tudo isso com a coragem que traz em seu DNA: identificou que o momento pedia ações emergenciais e se configurou para entregá-las, ao lado de parceiros que sempre fortalecem nosso trabalho. Nosso avião, que registra o fogo e o desmatamento na Amazônia, em 2020 também levou oxigênio e itens de saúde para povos indígenas em locais de difícil acesso, desassistidos (mais uma vez) pelo Estado brasileiro.

A emergência também veio de Brasília: com os brasileiros preocupados com a pandemia, o governo federal e seus aliados no Congresso Nacional decidiram que era a hora de "passar a boiada". Ter que resistir às inúmeras tentativas de ataque ao meio ambiente e aos povos indígenas, vendo projetos irem a votação sem nenhuma discussão pública ou consulta, fez com que nosso time se colocasse em alerta – e agisse. Frear a boiada (ou uma boa parte dela) só foi possível porque nossos apoiadores, aqueles que nos seguem nas redes sociais, assinam nossas petições, compartilham e engajam seus amigos e familiares, além dos nossos voluntários e doadores espalhados por todo o país, formaram uma rede potente, que se fez presente quando chamada e aumentou a pressão.

O Greenpeace é uma organização ativista de rua. O que fazer quando a rua nos é subtraída? Essa pergunta, que pautou os primeiros meses de isolamento social, foi logo sendo substituída por ações que nos mostraram caminhos também potentes. Infelizmente, logo vieram outras perguntas, mais duras. O que fazer quando uma pandemia expõe mazelas que o Brasil insiste em não endereçar de forma corajosa e definitiva, como a desigualdade social? Em um país que brada que o "agro é pop", como lidar com a falta de comida na mesa do brasileiro?

Essas perguntas pautaram e seguirão pautando muito do que fazemos. Porque o que os limites todos de 2020 nos mostraram é que a saída não será se não for coletiva. E que o coletivo, para além das nossas utopias, é uma construção trabalhosa – mas necessária, e incrivelmente rica. Não há saída para a emergência climática se não for coletiva. Não há saída para a humanidade se não for coletiva. Com a coragem que sempre orientou nossas campanhas e nosso ativismo, seguiremos mais fortes graças a essa rede de pessoas que acreditam que um outro país é possível. Um país que respeita os povos indígenas e demarca suas terras, que entende que a Amazônia é o nosso maior patrimônio e que mantê-la em pé é a decisão mais inteligente para hoje, para amanhã e para sempre. Um país que repensa o uso da terra e viabiliza que comida de verdade chegue para todos os brasileiros. Que olha para os desafios que enfrentaremos nos próximos anos, causados pelas mudanças climáticas, com coragem e criatividade – enfrentando os limites atuais, tomando decisões duras, planejando e investindo em soluções para permitir a vida diante de eventos extremos mais frequentes.

Seguimos, praticando com coragem o ato de ter esperança. Alimentá-la diariamente é, também, uma forma de resistir – e avançar.

Obrigada pela caminhada até aqui.

Um abraço,

Carolina Pasquali
Diretora-Executiva do Greenpeace Brasil

Carolina-Pasquali